Como estudar Niketche, de Paulina Chiziane, para o vestibular da UEL

O Curso e Colégio Prime, de Londrina, promoveu um evento exclusivo para ajudar os alunos a estudar Niketche, o romance da escritora moçambicana Paulina Chiziane, um dos livros que compõem a lista de leituras obrigatórias da UEL. "Niketche: uma história muito além da poligamia" ofereceu aos estudantes uma visão transversal da obra, do jeito que a universidade costuma cobrar nas provas.

A diretora pedagógica Márcia Chireia e o professor Biti, de Literatura, pensaram num formato que misturasse aula e espetáculo cultural. Como a UEL costuma cobrar Niketche conectando a obra com história, geografia, filosofia e até ciências naturais, essa lógica foi reproduzida no evento, que dividiu a análise do livro entre seis disciplinas diferentes, mostrando aos alunos como uma mesma obra pode ser lida por ângulos tão distintos.

Seis professores do Prime subiram ao palco, cada um trazendo o olhar de sua disciplina sobre o livro. A programação teve ainda apresentações artísticas que trouxeram o ritmo e a força da cultura moçambicana, permitindo aos alunos sentir a obra além do texto escrito.

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Paulina Chiziane e o contexto de publicação de Niketche

O romance publicado em 2002, dez anos depois do fim da guerra civil que devastou Moçambique, acompanha a história de Rami, uma mulher que descobre, depois de vinte anos de casamento, que o marido mantém outras esposas espalhadas pelo país. Rami procura cada uma delas e, aos poucos, a rivalidade entre as mulheres vai se transformando em união. Elas passam a se organizar, conquistam independência financeira e encontram um novo lugar naquela sociedade.

O título, Niketche, vem de uma dança tradicional do norte de Moçambique, ligada ao ritual de passagem das mulheres para a vida matrimonial. A autora usa essa dança como metáfora para discutir a condição feminina, o empoderamento, a identidade e a tensão entre tradição e modernidade. Paulina Chiziane foi a primeira mulher moçambicana a publicar um romance e recebeu o Prêmio Camões em 2021, a maior honraria da literatura em língua portuguesa.

Colonização, guerra civil e poligamia na aula de História

O professor Rozante, de História, abriu o evento situando Moçambique a partir da Conferência de Berlim, em 1884 e 1885, quando as potências europeias partilharam o continente africano entre si. Portugal já dominava Moçambique desde as grandes navegações e esse controle se prolongou com o Estado Novo português, o regime iniciado por Antônio Salazar em 1933 e que durou até a década de 1970.

A neutralidade de Salazar durante a Segunda Guerra ajudou o regime a se manter no poder justamente na época em que o resto do continente africano vivia seus processos de descolonização, nas décadas de 1950 e 1960, o que fez as colônias portuguesas chegarem tarde a esse movimento. Em Moçambique, a FRELIMO nasceu em 1962 sob liderança de Eduardo Mondlane, que converteu a luta política em guerrilha armada em 1964. Mondlane foi assassinado em 1969, vítima de um atentado a bomba em Dar es Salaam, e Samora Machel, socialista declarado, assumiu a liderança do movimento.

A Revolução dos Cravos, em Portugal, em 1974, abriu caminho para as independências das colônias e Moçambique declarou a sua em 1975, com Samora Machel eleito presidente. O alinhamento marxista do novo governo despertou a oposição do bloco capitalista e assim nasceu a RENAMO em 1976, dando início, no ano seguinte, a uma guerra civil de quinze anos, marcada por minas terrestres, massacres e violência generalizada. A paz veio com o Tratado de Roma, em 1992, e em 1994 aconteceram as primeiras eleições pluripartidárias do país.

Rozante mostrou aos alunos como essas transformações históricas dialogam diretamente com o enredo do livro. Com o fim da Guerra Fria, Moçambique precisou se adaptar a uma economia de livre mercado, o que trouxe mudanças culturais profundas e passou a colocar em questão hábitos e costumes antigos. Paulina Chiziane, que atuou junto à FRELIMO a partir de 1970, discute abertamente a poligamia nesse cenário de transformação. A prática viveu uma inversão regional curiosa ao longo do tempo: o norte do país, especialmente o grupo étnico Macua, que historicamente rejeitava a poligamia, passou a aceitá-la sob influência islâmica, enquanto o sul, antes mais aberto a esse costume, foi adotando a monogamia por influência da Igreja Católica. Em 2019, uma nova lei estabeleceu oficialmente a monogamia como regime civil em Moçambique, invalidando juridicamente o casamento formal poligâmico, ainda que relações informais paralelas ao casamento continuem existindo sem configurar crime de bigamia.

Geografia traz partilha africana, IDH e a divisão norte-sul

O professor Reginaldo, de Geografia, também partiu da Conferência de Berlim e da partilha do continente africano entre as potências europeias em sua fala. Ele destacou que a colonização direta durou entre 60 e 80 anos na maior parte da África, um período curto se comparado aos mais de 300 anos de colonialismo vividos pelo Brasil, mas ainda assim trágico o suficiente para deixar como herança guerras, doenças, fome e miséria, já que a exploração dos recursos naturais foi intensa e as infraestruturas ficaram escassas.

Reginaldo trouxe dados importantes que podem ser cobrados no vestibular. Moçambique integra a África Subsaariana e tem um IDH de 0,493, o que o coloca entre os países de IDH baixo, uma das quatro categorias que os alunos precisam conhecer junto com médio, alto e muito alto. O Brasil, para efeito de comparação, está na categoria de IDH alto.

Outro eixo importante da fala de Reginaldo foi a divisão entre o norte e o sul de Moçambique, que atravessa toda a obra. No norte predomina a tradição matrilinear, com a mulher ocupando papel relevante na estrutura familiar e forte presença islâmica, enquanto no sul a tradição patrilinear convive com a influência cristã e os costumes ocidentais. Essa diferença ajuda a entender o enredo, já que as esposas de Tony vêm de regiões diferentes do país. Reginaldo ainda falou sobre os países africanos de língua portuguesa e sobre a presença de moçambicanos entre os africanos trazidos ao Brasil durante o período escravocrata.

Filosofia aborda existencialismo, biopolítica e resistência

O professor Lucas, de Filosofia, conectou a obra a três pensadores. O primeiro foi Jean-Paul Sartre, com a ideia de que a existência precede a essência. Quando Rami se vê diante do espelho como vítima, como "a esposa deixada", ela assume o que Sartre chama de má fé, reconhecendo-se como determinada por fatores externos em vez de assumir a própria liberdade. Ao longo da narrativa, porém, ela vai se mobilizando, encontra as outras esposas e começa a perceber que pode interferir no próprio destino.

A segunda pensadora foi Simone de Beauvoir, com a frase "Ninguém nasce mulher, torna-se mulher", que aparece diretamente na obra. A conselheira amorosa que Rami procura investigar o que ela aprendeu sobre ser mulher e Rami percebe que sua condição foi construída por ensinamentos familiares, tradições e rituais, exatamente a ideia central de Beauvoir sobre a mulher como construção social.

O terceiro foi Michel Foucault, com os conceitos de biopolítica e microfísica do poder. Lucas mostrou que o controle sobre o corpo das mulheres vem de toda uma estrutura social feita de rituais, saberes e tradições, um poder que se exerce de forma capilar, presente nas relações cotidianas. E onde existe poder, lembrou Lucas citando Foucault, existe também resistência: Rami e as outras esposas formam um parlamento de mulheres, praticam um xiti e vão rearranjando as relações de poder à sua volta. Para o vestibular, a trajetória de Rami pode ser lida como essa passagem de uma condição de determinação para uma de consciência e agência.

Biologia destaca ciclo menstrual, HIV e avanço científico

O professor Ziroldo, de Biologia, partiu do mito da princesa insubmissa presente na obra, segundo o qual as mulheres sangram lágrimas até hoje como castigo por aquela desobediência antiga. Ele mostrou como diversas culturas construíram tabus em torno da menstruação ao longo da história, tratando o sangue menstrual como algo impuro e perigoso, capaz até de destruir plantações. Trouxe também referências dessas crenças no Levítico e em tradições romanas, islâmicas e indígenas, mostrando o quanto esse tabu é universal.

Depois, Ziroldo explicou a biologia por trás do ciclo menstrual, detalhando o eixo hipotálamo-hipófise-ovário, que envolve cinco hormônios, três glândulas e um ciclo de 28 dias. O hipotálamo libera o GnRH, que estimula a hipófise a liberar o FSH, responsável por promover o desenvolvimento do folículo ovariano e a produção de estrogênio. O estrogênio, por sua vez, espessa o endométrio e, ao retornar à hipófise, provoca a liberação do LH, que desencadeia a ovulação. O folículo rompido se transforma em corpo lúteo, que produz progesterona e acelera ainda mais o espessamento do endométrio. Quando não há gravidez, o corpo lúteo regride, os hormônios caem e o endométrio descama, dando origem à menstruação, um processo puramente biológico.

Ziroldo também conectou a obra ao cenário do HIV e da AIDS em Moçambique. O livro, publicado em 2002, retrata um país sem acesso a antirretrovirais, com passagens que descrevem pessoas esqueléticas definhando em hospitais. Ele explicou como o HIV funciona como um retrovírus de RNA fita simples, que usa a enzima transcriptase reversa para converter seu material genético em DNA e se integrar ao genoma da célula hospedeira, tendo como alvo principal os linfócitos T CD4. Quando essas células caem abaixo de 200 por milímetro cúbico, considera-se que a pessoa desenvolveu AIDS, o que abre caminho para doenças oportunistas, e essa distinção entre soropositivo, portador do HIV e paciente com AIDS costuma aparecer com frequência nas provas.

O professor também trouxe as atualizações científicas mais recentes, como o lenacapavir, medicamento que impede a formação dos capsídeos virais e permite uma única aplicação a cada seis meses, tanto para tratamento quanto para profilaxia pré-exposição, tema em destaque na Conferência Mundial de AIDS realizada no Rio de Janeiro. Ele situou essa novidade dentro da evolução dos antirretrovirais, que foram do AZT nos anos 1980 aos coquetéis dos anos 1990 até chegar à dose única atual, e apresentou o conceito de "indetectável equivale a intransmissível" como um avanço importante na redução do preconceito e do estigma. Para a prova, vale prestar atenção especial aos mecanismos de ação desses medicamentos, sobretudo quando envolvem a inativação de enzimas como a transcriptase reversa, as integrases e as proteases.

Língua Portuguesa foca em topicalização, infinitivo pessoal e o verbo como estrutura

A professora Cláudia, de Língua Portuguesa, mapeou a singularidade do português moçambicano da obra, começando pela topicalização, o recurso pelo qual a narradora coloca uma palavra decisiva logo no início da frase e constrói o período a partir dela. Esse deslocamento revela uma escolha de ênfase que diz muito sobre o lugar do outro em relação à narradora.

Ela também chamou atenção para a estrutura verbal do livro, como o infinitivo pessoal em "ficamos a olharmos", em que a desinência de pessoa aparece marcada diretamente no verbo, uma flexão típica do português que revela o repertório da autora. O uso do pronome "tu", com a concordância certinha na segunda pessoa do singular, aparece com precisão ao longo do texto, e a transição do "eu" para o "nós" na narrativa marca uma mudança de perspectiva importante, quando a dor de Rami deixa de ser só dela e passa a ser compartilhada por todas as esposas.

O pretérito imperfeito também tem papel estrutural na obra, já que sua presença constante revela hábito e cria uma fluidez que dá propósito à narração. A repetição dos verbos no mesmo tempo verbal produz um efeito quase metalinguístico, em que a repetição da forma verbal espelha a repetição da própria ação. Um exemplo de análise sintática mais elaborada aparece na frase "servia ao marido o que lhe apetecia", em que o "o" funciona como pronome demonstrativo e, junto do "que", introduz uma oração subordinada substantiva relativa, exercendo a função de objeto direto do verbo "servia".

Cláudia ainda explorou a formação de palavras a partir do radical "ting", como em "cutinga", "tingar", "tingada" e "tingador", mostrando como esse processo de construção lexical no português moçambicano se aproxima do português brasileiro. Para fechar, destacou o paralelismo criado pela repetição do verbo "ajoelhar" ao longo do texto, um recurso que pode aparecer em questões discursivas sobre a relação entre linguagem e intenção da autora, além de trechos em que a construção da crase também merece atenção.

Literatura traz o contemporâneo, o local de fala e a dança da narrativa

O professor Biti, de Literaetura, encerrou o evento amarrando as falas anteriores e situando Niketche dentro da literatura contemporânea. Publicada em 2002, a obra pertence ao período que se convencionou chamar de literatura contemporânea ou pós-moderna, marcado pela presença de vozes historicamente silenciadas, como as de minorias e mulheres, assumindo o local de fala e recontando a própria história. Paulina Chiziane, como primeira mulher moçambicana a publicar um romance, encarna essa mudança.

Biti traçou um paralelo com Dom Casmurro, de Machado de Assis, em que o discurso patriarcal constrói a versão oficial dos fatos. Em Niketche, é uma mulher quem narra, dentro de uma sociedade misógina e patriarcal. Esse simples gesto já representa uma subversão literária. O espelho que aparece no início da obra dialoga com outro espelho famoso da literatura, mas aqui a autora usa a imagem para questionar a submissão em vez de celebrar o narcisismo.

Um dos pontos mais bonitos da análise de Biti foi a relação entre forma e conteúdo na própria construção das frases de Paulina Chiziane, que costumam vir acompanhadas de outras orações que ajudam a construir o sentido, um arranjo gramatical que reflete o estilo da autora. O movimento narrativo de Rami reproduz a própria dança niketche, um passo à frente e um passo atrás, um avanço e um recuo, um ritmo que formalmente dança enquanto a narrativa se constrói. Biti observou ainda que as cinco esposas de Tony representam as diferentes regiões de Moçambique, cada uma delas uma metonímia de um todo, e que a soma de todas forma a diversidade nacional do país.

No fechamento do livro, as mulheres conquistam autonomia financeira e seguem seus próprios caminhos, deixando Tony para trás. A história termina com Rami e Tony numa praça, diante de uma descoberta que marca a última grande derrota dele, completando um arco narrativo que vai do silenciamento à subversão, da subserviência à sororidade e à independência.

Conheça o Prime

 

O Prime tem compromisso com a formação sólida e a preparação rigorosa para vestibulares de alto desempenho. O evento Niketche mostra um pouco da metodologia adotada nas aulas, preparando os estudantes para responder a questões que pedem muito mais do que memorizar o enredo. Agende uma visita e conheça nossa escola: (43) 3374-0620